Elipse Clínica Multidisciplinar

Pais com medo do mundo: Filhos com medo da vida
Uma conversa sobre superproteção e desenvolvimento.

Luciana Blumenthal
Psicóloga Clínica
Psicoterapeuta Junguiana

Vivemos hoje um momento de polarização, no qual observamos uma luta agressiva e hostil entre extremos. Há muita violência real, concreta e também uma violência vivida através da intolerância e da falta de diálogo entre os opostos. Neste contexto, há aqueles que acabam agindo de forma extremamente unilateral e intolerante, mas também há outros que se sentem acuados e com medo desta realidade que por vezes é sim assustadora.
Ao trabalhar de forma intensa com crianças, adolescentes, jovens e famílias, observo uma grande quantidade de pais que, assustados com a violência crescente, conflitos e polarização de ideias, tendem a se retrair e proteger seus filhos, acreditando que estes não serão capazes de enfrentar estes desafios. Mas será que esta atitude beneficia o desenvolvimento de nossos filhos?

A consciência egóica vai se formando a partir de um todo indiferenciado inconsciente. A psique do bebê, incialmente misturada à da mãe, vai formando ilhas de consciência mergulhadas neste todo. Nossas experiências, positivas ou negativas, vão atraindo aspectos do todo inconsciente que juntos ganham novos significados e vão construindo, ao longo de toda a vida, nossa personalidade.

A criança vai aos poucos se reconhecendo como um indivíduo capaz de ter atitudes, interagir, tomar decisões. As relações mais importantes para a formação deste eu são as relações com as figuras parentais, que junto com as experiências vividas com os pares (amigos e irmãos) e outras figuras de confiança (tios, professores), vão construindo a personalidade da criança. Desta forma, o modo com que somos vistos por nossos pais e as experiências que nos proporcionam são fundamentais para a construção de um ego forte, preparado para a vida. Experiências positivas e negativas são muito importantes para esta formação.

O que tenho percebido em minhas experiências na vida e em consultório é um crescente número de pais que vê seus filhos como seres frágeis perante as dificuldades, que tentam a todo custo protegê-los dos conflitos, deste mundo violento, das adversidades. Sim, é este o papel dos pais. Devemos proteger nossos filhos, zelar por eles, eles são sim seres em formação. No entanto, este processo de formação exige que sejamos expostos aos conflitos, que entremos no embate com o outro, para que possamos fortalecer o ego e elaborar a sombra, ou seja, é o outro que nos mostra aquilo que não conseguimos ver em nós mesmos e, através deste espelho, temos a chance de integrar novos aspectos à personalidade. Ao proteger demasiadamente os filhos, ao vê-los como frágeis, fazemos com que eles também se vejam assim e passem, consequentemente, a depositar sua força em nós, seus pais. Os mesmos pais que são superprotetores podem ser superexigentes e superestimuladores, principalmente no âmbito acadêmico. Essas crianças que foram tolhidas e impedidas de se desenvolver por completo, agora são exigidas, mas não sabem como alcançar suas metas.

Observo muitas vezes, nesta postura de superproteção, uma visão de que a causa das dificuldades e dos conflitos enfrentados por nossos filhos é o outro, seja ele um colega de escola, a própria escola ou até o mundo violento que enfrentamos. O que não percebemos, no entanto, é que, ao culpabilizar o outro, não tiramos apenas a culpa de nossos filhos, mas também sua parcela de responsabilidade na criação e resolução de seus próprios conflitos. Agindo assim, estamos criando crianças e adolescentes frágeis, egocêntricos, intolerantes à frustração, que não conseguem perceber a si mesmos e ao outro. Desta forma, o mal está no outro e não é reconhecido dentro de nós, tornando o mundo ainda mais polarizado.  Sobre isso, Edward C. Whitmont diz: “Vergonha, culpa, orgulho, medo, ódio, inveja, carência e avidez são subprodutos inevitáveis da construção do ego. Eles estimulam a polaridade entre sentimento de inferioridade e necessidade de poder. Eles são os aspectos da sombra da primeira emancipação do ego.”

Na adolescência, fase na qual a formação da identidade está a todo vapor, tenho observado, com frequência, jovens vulneráveis que não conseguem perceber a própria força, sucumbem aos primeiros grandes desafios da vida, chegando a ficar deprimidos muitas vezes. Não sabem quem são e não percebem  em si mesmos as ferramentas necessárias para adaptação social e a construção de seu futuro. Inseguros frente aos desafios e intolerantes às frustrações, tendem a fugir da realidade das mais variadas formas ou enfrentá-la de forma polarizada. Já adultos, por vezes, tem dificuldade em perceber o quanto suas próprias atitudes contribuem para que o mundo esteja como está. Criticam muito, agem pouco.

É evidente que há muitas coisas boas nesta geração de pais e filhos e também mudanças positivas ocorrendo em nosso mundo atual. A questão aqui não é criticar e sim olhar para nós mesmos enquanto pais e perceber a importância de nosso papel na formação não apenas de nossos filhos, mas de toda uma geração.  Na visão da Psicologia Analítica, a psicologia Junguiana, o ser humano está em constante desenvolvimento, até a sua morte. Não apenas as crianças se desenvolvem, nós adultos também. É preciso olhar para nós mesmos de forma crítica para que possamos ser pessoas e, consequentemente, pais melhores. Não cabe a nós traçar ou determinar o caminho de nossos filhos, muito menos poderíamos ter o poder de impedi-los de cair, se frustrar, sofrer. O papel dos pais é dar o amor, o apoio, e ajudá-los a desenvolver as habilidades e as condições para que enfrentem cada um dos desafios de seu desenvolvimento. Não caminhamos junto a eles, mas ao seu lado, cada um com sua própria rota. Em alguns momentos damos as mãos, em outros momentos olhamos de longe, sem nunca perder o olhar e o envolvimento. Não há caminho certo ou regra para ser pai ou mãe, há sim a obrigação da constante reflexão e a busca por caminhos melhores. Como disse Antonio Machado: “Caminhante, não há caminho, faz-se o caminho ao andar”.

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