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| BEM RESOLVIDOS O namoro
não atrapalha a rotina de Carol, dez anos, e João Pedro, 11 |
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| NAMORO |
| Meu primeiro
amor |
As crianças se apaixonam cada vez mais cedo. O
que os especialistas aconselham para que este sentimento
não prejudique a vida dos pequenos |
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| Por KÁTIA
MELLO |
A vida, naquela primeira década, teve como marca a leveza das
emoções. Crises iam embora na primeira conversa com os pais.
Pequenos dilemas eram encarados e resolvidos de forma lúdica. Até
que, de uma hora para outra, desencadeia-se a tempestade. A pulsação
entra em ritmo frenético. Nas mãos suadas ou nos cadernos, bilhetes
com mensagens do tipo: “Eu te amo. Sem você não posso viver.” É o
primeiro amor, a primeira paixão, o turbilhão de sentimentos que
toma conta da rotina de crianças e pré-adolescentes. Ele começa a
varrer o coração dos pequenos entre os nove e os 12 anos, justamente
na fase em que os hormônios iniciam sua festa no corpo humano. E
pode destruir o equilíbrio da garotada, ainda despreparada para
enfrentar essa avalanche de sensações. O efeito é de um nocaute. Por
vergonha, as crianças levam meses para revelar o segredo. Às vezes
nem contam. Os pais, pegos de surpresa, não sabem como administrar a
nova realidade. Por todos esses motivos, o tema vem recebendo
atenção cada vez maior de pesquisadores, terapeutas, psicólogos,
pedagogos e professores. O desafio é criar ferramentas para que um
sentimento nobre, fruto de uma pureza comovente, não anule, por
ironia, a alegria de viver típica desta faixa etária.
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| UM PACTO DE CONFIANÇA A
mãe prometeu a Isabella não revelar o nome de sua paixão. “Ao
lado dele, minha testa sua. Respiro fundo para parecer
normal”, confessa a menina |
O primeiro amor, atestam os especialistas, exerce um papel
essencial na forma como o indivíduo irá se relacionar com o mundo e
com as pessoas no futuro. Por isso, ele não pode ser tratado como
simples brincadeira. “Quando é correspondida, a primeira relação
amorosa faz muito bem. Eleva a auto-estima e faz as crianças se
sentirem valorizadas. Além disso, a sexualidade começa a ser
definida neste período”, analisa a psicóloga Cristiana Pereira,
habituada a atender o público infantil e adolescente. É também o
momento em que a meninada, ao pensar horas a fio no outro, descobre
a abstração. O caso da paulistana Carolina Diniz, dez anos, é
exemplar. “O João Pedro me emociona. Meu sonho é estar com ele o
tempo todo. E ele também sonha comigo”, diz, convicta – até onde
alguém com dez anos pode estar convicto – de que encontrou o
príncipe encantado. Juntos há um ano e meio, Carolina e o namorado,
João Pedro Pinto Leite, 11 anos, se encontram nos arredores da
escola, onde, segundo ela, “a paisagem é bonita”. O entusiasmo do
garoto não é menor. “É primordial fazer a Carol feliz. Se ela não
estiver contente, não irá me corresponder. E aí, eu vou ficar
abalado”, reflete João Pedro, que escreve poemas e os envia à amada
pelo Orkut.
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| GOSTAR TEM EUS RISCOS A
pedagoga da escola achou que Jéssica estava se expondo por
causa de um menino mais velho.Ela não o esqueceu. “Mas não
fico mais na cola dele”, diz |
O pediatra Fábio Ancona Lopez, da Universidade Federal de São
Paulo Unifesp), lembra que em toda paixão há um estado alterado da
consciência. Com os pequenos não é diferente. “O centro do mundo
passa a ser o objeto amado”, afirma. Na pré-adolescência, a criança
se desenvolve nos aspectos emocional e corporal. Nessa fase,
iniciam-se as primeiras experiências com o mundo externo. Meninos e
meninas despertam para padrões além dos apresentados pelos
familiares. Começam a se firmar sexualmente, mas ainda não têm
consciência sobre seus sentimentos. Não conseguem compreendê-los.
Apenas sentem, muitas vezes de modo arrebatador. A criança que diz
estar amando freqüentemente acredita que aquele amor é único. Nessas
horas, a habilidade para escutar os filhos é fundamental, atesta a
psicóloga Cristiana. “Por mais aflitos que fiquem, os pais precisam
perceber que receberam um presente do filho, que os escolheu como
confidentes”, explica a especialista.
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| "eU SÓ PENSAVA NELA"
Thomas contou com a mãe para esquecer a amada. No quarto, a
foto da menina agora está virada |
Muitos pais questionam se é hora de o filho se apaixonar. É uma
postura inócua: a situação está posta e, de resto, amores não chegam
em momentos agendados. O fundamental é mostrar acolhimento e
reforçar os laços de confiança. Outro aspecto importante é respeitar
o ritmo da criança e deixá-la tomar a iniciativa de falar sem
pressões. Isabella Scuotto, dez anos, não gosta de comentar seus
sentimentos com os adultos, mas confessou à mãe estar apaixonada. A
menina costuma se arrumar com capricho para ir à escola. Passa
batom, faz tudo para chamar a atenção do seu amor platônico, um
colega de escola. Até agora, o menino não desconfia do que se passa
porque Isabella não teve coragem de contar. “Quando estou ao lado
dele, minha testa sua e tenho de respirar fundo para parecer
normal”, relata. A estudante fez com a mãe, Fernanda Pavani, um
pacto de segredo – o pai é ciumento e pode reclamar. Situação,
aliás, que deve ser contornada. “Os pais precisam lidar com o
crescimento dos filhos. Este é o primeiro anúncio de que a criança
está se abrindo para o mundo”, explica a psicóloga Lisete Calef,
também especializada em atendimento infantil.
Quando o jovem apaixonado começa a alterar sua rotina de estudo e
de atividades com os amigos, o melhor é buscar ajuda. Choros por
dias a fio, queda repentina nas notas escolares ou noites insones
são sinais de que algo pode estar errado. A garotada também leva
foras e isso provoca dor. Nada que lembre as epopéias românticas de
Tristão e Isolda, mas capazes de deixar pequenas cicatrizes. A
pesquisadora americana Nancy Kalish, professora de psicologia da
Universidade Estadual da Califórnia, nos Estados Unidos, entrevistou
1,6 mil pessoas entre 18 e 92 anos e descobriu algo surpreendente:
três em cada dez gostariam de reatar com o primeiro amor. “Muitos se
separaram de seus primeiros romances por conta dos pais. Por isso,
se a pessoa não estiver fazendo mal a seu filho, deixe-os em paz”,
aconselhou a psicóloga em entrevista a ISTOÉ. Outro ponto importante
é o respeito à privacidade da criança. Nada de bisbilhotar o
computador ou a pasta da escola em busca de provas. “Respeito a
Isabella. Não leio seu diário”, diz a mãe, Fernanda.
Diante da frustração amorosa do filho, não adianta dizer que há
centenas de outros pretendentes. O melhor é fazê-los entender que a
perda e o sofrimento são sentimentos com os quais todos devem
aprender a conviver. A odontopediatra brasiliense Adriana Barreto
começou a notar que sua filha Rafaela, 12 anos, chorava copiosamente
todas as vezes que assistia a Meu primeiro amor. No filme, o
personagem vivido pelo ator Macaulay Culkin tinha uma namorada de
dez anos. Depois, vieram perguntas do tipo: “Mãe, quando você deu
seu primeiro beijo na boca?” Rafaela tinha se declarado a um menino
da escola. Ficou com ele por seis meses e, depois, foi trocada por
outra. “Minha amiga me contou que ele tinha me traído. Fiquei muito
triste”, conta ela. Rafaela chorou muito, devorou muito chocolate,
engordou e afogou as mágoas escrevendo poesias. Depois passou. “Eu o
perdoei porque perdôo fácil”, conta a menina. Dar importância
exagerada a algo que pode ser passageiro também faz parte da lista
de posturas condenadas. “Quando uma criança que não tem namorado é
questionada insistentemente sobre isso, poderá concluir que há algo
errado com ela”, afirma a psicóloga Lisete.
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A PAIXÃO QUE FAZ BEM
Bruno melhorou o seu desempenho nos estudos após conquistar a
“bonitona” da classe |
Em alguns casos, a paixão inicial do filho traz para os pais a
preocupação com um outro tema polêmico: a iniciação sexual precoce.
Uma pergunta freqüente é: “Se a minha filha der um beijo, ela depois
irá adiante?” Quase sempre não. É preciso distinguir esse primeiro
amor na pré-adolescência do que a garotada chama de “ficar”. “É
diferente do ficar porque supõe fidelidade ao outro”, adverte a
psicóloga Cristiana. Uma gíria comum entre esses meninos e meninas,
usada em mensagens na internet, é a BV, as iniciais de Boca Virgem.
“Perdi meu BV” quer dizer “dei meu primeiro beijo”. Para eles, isso
é uma conquista.
Em algumas situações, a paixão de estréia pode fazer muito bem
aos pequenos. Ficar com a menina mais bonita da classe é um sinal de
status para os meninos. Bruno Scursoni, 12 anos, interessou-se por
uma delas. Seus colegas disseram que ele não deveria perder a chance
de estar com a bela garota. Ele faz questão de dizer que não é nada
sério. “Não sou muito chegado em namorar”, diz ele. Apesar de negar
o namoro, só o fato de ele estar ligado à menina fez com que os
educadores notassem uma mudança positiva em seu comportamento.
“Todos os professores disseram que o comportamento do Bruno
melhorou”, afirma a pedagoga paulista Vanessa de Carvalho Salomon.
Para conquistar as meninas, é comum os garotos exibirem suas
qualidades na escola.
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| ROMANTISMO JUVENIL
Rafaela passou a chorar ao ver filmes de amor. Estava muito
apaixonada por um amigo de escola | Os
professores também precisam estar atentos à situação emocional da
criança. E, em algumas situações, devem agir. Falante e galanteador,
Thomas Anderson Esch, 11 anos, passou por uma grande desilusão.
“Sofri por uma menina. Tive dificuldade na escola, principalmente em
matemática. Não conseguia prestar atenção nas aulas. Só pensava
nela.” A mãe, a professora Anne Anderson, foi chamada para se
inteirar da situação. “Ele ficou arrasado. A gente até torceu para
ele reconquistá-la, mas, ao mesmo tempo, tudo pareceu ser cedo
demais”, conta ela. Thomas diz ter superado a paixão. “Agora sei que
posso gostar de outras e não deixar isso atrapalhar a minha vida”,
afirma ele. Em seu quarto, um porta-retrato com a foto da menina
permanece virado de costas. “Nesta fase, eles sofrem muito com a
rejeição”, explica a terapeuta Maria Teresa Maldonado, autora do
livro Cá entre nós – na intimidade das famílias. “São os primeiros
passos da alfabetização amorosa”, completa ela.
Outro caso em que os educadores tiveram que intervir foi o de
Jéssica Rezende, 12 anos. A pedagoga Vanessa achou que a menina,
aluna de uma escola em que trabalha, poderia se expor demais por
estar apaixonada por um menino mais velho. A classe inteira soube do
amor de Jéssica pelo rapaz. “Eu mandei um bolo de cartas para ele.
Tinha vergonha de chegar perto, ficava nervosa. Hoje somos amigos”,
conta a garota. Ela não desistiu de namorá-lo um dia, mas optou por
“não ficar mais na cola dele”. Bem orientada – e sem perder a
ternura –, resolveu a questão da melhor maneira possível. A lição,
sobretudo para os pais, é clara: é preciso sensibilidade para tentar
amenizar os eventuais sofrimentos sem criar bloqueios afetivos nos
corações puros das crianças. Amar é bom. Ser amado também. Que elas
cheguem à maturidade certas disso.
Colaboraram: Aziz Filho e Joceline
Gomes |