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Por que meu filho mente tanto?
A mentira é sempre encarada com muita preocupação por parte dos pais. Por
esse motivo, é importante ter em mente que para uma criança de até cinco anos
de idade, mentir é normal. Até esta fase do desenvolvimento, é tido como completamente
normal que a criança invente histórias. Isto porque a realidade ainda é muito
confundida com a fantasia.
A imaginação e a fantasia fazem parte do mundo da criança até os cinco anos, e são bases para o
pensamento lógico do adulto. Mas, à medida que a criança vai crescendo, essas funções vão dando lugar à
noção de realidade, sem que sejam completamente extintas.
A partir dos seis anos de idade espera-se que a criança ainda brinque com a imaginação, mas que
fantasie bem menos.
A mentira pode ser encarada como intencional a partir dos sete anos de idade, fase na qual a
noção de realidade já está estruturada e a criança sabe diferenciar muito bem o que é mentira e o que é
realidade.
As crianças maiores podem mentir por vários motivos: temer castigos e repreensões, receber
alguma recompensa, se isentar de culpas, fugir de responsabilidades, melhorar a auto-estima, chamar a
atenção.
Outro motivo que pode levar a criança a mentir é quando seus pais mentem. Os pais são os
modelos mais importantes para as crianças. As crianças se espelham no comportamento de seus pais. Se
os pais pedem que a criança minta ao telefone dizendo que não estão em casa, estão ensinando seu filho
a mentir. Ou quando os pais deixam passar uma mentira de seu filho, também estão reforçando este
comportamento, fazendo com que a criança encare a mentira como algo natural. Isto, no futuro se
transforma no resfriado fictício para escapar da bronca da professora por não ter feito a lição, no
automóvel de última geração que na verdade o pai não tem para chamar a atenção dos colegas etc.
Percebemos que a criança aprende desde cedo a mentir quando seus pais a ensinam a não dizer
quando acham a roupa da colega feia, ou quando não gostam de um presente de aniversário. Ou seja, à
medida que começam a ampliar sua rede de relacionamento, as crianças são treinadas a contar algumas
mentiras para não magoar o outro, inibindo sua espontaneidade. A partir daí, a criança aprende que
necessita esconder o verdadeiro sentimento em algumas situações.
Uma pergunta muito importante que surge é: e como os pais devem agir frente a tudo isto?
Em primeiro lugar, os pais devem, sempre que perceberem uma mentira,
pontuar a diferença entre a fantasia e a realidade, mesmo que a criança ainda seja pequena e não entenda
essa diferença.
A criança tem que saber que quando mente terá a desaprovação de quem o
cerca, e que se fizer o contrário, ou seja, contar a verdade, será admirada. E que ao invés de castigar ou
dar uma bronca, compete aos pais ensinarem os benefícios da verdade e os prejuízos da mentira. Isto
porque as broncas e os castigos gerarão mentiras futuras com a intenção de fugirem disto.
Quando a criança desenvolve um comportamento mentiroso freqüente que se estende
muito além dos sete anos, os pais devem procurar ajuda profissional para compreender porque isto está
acontecendo e receber as orientações necessárias. Isto porque após esta idade, o emprego freqüente de
histórias fantasiosas pode revelar problemas sérios. Afinal, a fantasia neste caso pode não ser mais
considerada uma mentira proposital, mas sim, uma fuga da realidade, como é o caso das psicoses em que a
mentira vem em forma de delírios, devido a uma quebra de contato com a realidade. Ou ela pode surgir
também na forma de uma compulsão, como se fosse uma dependência. Neste caso, a pessoa sabe que
está mentindo, mas não consegue se controlar.
Contudo, na maioria das vezes, a "imaginação fértil" das crianças
indica um crescimento saudável, mas que exige a atenção de sempre.
Beatriz Guimarães Otero
Psicóloga/Psicoterapeuta Junguiana
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