A Função
do Diagnóstico Psicopedagógico
Silvia Amaral de Mello Pinto
Pedagoga/ Psicopedagoga
Conselheira da ABPp Nacional
Coordenadora
da Elipse – Clínica Multidisciplinar
Segundo o DSM-IV, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais
(APA, 1994) os Transtornos da Aprendizagem (anteriormente Transtornos das
Habilidades Escolares) estão incluídos nos “Transtornos Geralmente Diagnosticados
pela Primeira Vez na Infância ou Adolescência”. Os Transtornos da Aprendizagem
incluem: Transtorno da Leitura, Transtorno da Matemática, Transtorno da Expressão
Escrita e Transtorno da Aprendizagem Sem Outra Especificação.
Esta última “categoria envolve os transtornos da aprendizagem que não satisfazem
os critérios para qualquer Transtorno da Aprendizagem específico, podendo
incluir problemas em todas as três áreas (leitura, matemática, expressão escrita)
que, juntos, interferem significativamente no rendimento escolar, embora o
desempenho nos testes que medem cada habilidade isoladamente não esteja acentuadamente
abaixo do nível esperado, considerando a idade cronológica, a inteligência
medida e a escolaridade apropriada à idade do indivíduo” ( APA, 1994). Serão
esses os transtornos que aqui iremos tratar.
O transtorno de aprendizagem é uma perturbação no processo de aprendizagem,
não permitindo ao indivíduo aproveitar as suas possibilidades para perceber,
compreender, reter na memória e utilizar posteriormente as informações obtidas.
Num enfoque psicopedagógico, encaramos os transtornos de aprendizagem como
um sintoma, um sinal de descompensação, no sentido de que não são permanentes,
sendo passíveis de transformação. “A hipótese fundamental para avaliar o sintoma
é entendê-lo como um estado particular de um sistema que para equilibrar-se
precisa adotar esse tipo de comportamento que poderia merecer um nome positivo,
mas que caracterizamos como não-aprender” ( Pain,1986).
Esse é o papel inicial do psicopedagogo frente às dificuldades de aprendizagem:
fazer uma análise da situação para poder diagnosticar os problemas e suas
causas. Ele levanta hipóteses através da análise de sintomas que o indivíduo
apresenta, ouvindo a sua queixa, a queixa da família e da escola; além de
resgatar a história de vida do sujeito. Para isso, torna-se necessário conhecer
o sujeito em seus aspectos neurofisiológicos, afetivos, cognitivos e sociais,
bem como entender a modalidade de aprendizagem do sujeito e o vínculo que
o indivíduo estabelece com o objeto de aprendizagem, consigo mesmo e com o
outro. O psicopedagogo procura, portanto, compreender o indivíduo em suas
várias dimensões para ajudá-lo a reencontrar seu caminho, superando dificuldades
que impeçam um desenvolvimento harmônico e que estejam se constituindo num
bloqueio da comunicação dele com o meio que o cerca.
São diversos os fatores envolvidos nos transtornos de aprendizagem: orgânicos,
cognitivos, emocionais e ambientais, relacionados a três pólos de procedência:
o indivíduo, a família e a escola.
Estando a origem de toda a aprendizagem nos esquemas de ação através do
corpo, precisamos verificar, primeiramente, como estão sendo processadas as
principais funções e a integridade dos órgãos ligados a elas, para podermos,
posteriormente, considerar os aspectos cognitivos. Estes dizem respeito ao
desenvolvimento e funcionamento das estruturas que proporcionam a possibilidade
de conhecimento por parte do sujeito, em sua interação com o meio. Nessa área
podemos incluir as funções de percepção, discriminação, atenção,
memória e processamento da informação.
Não podemos nos esquecer de que os fatores motivacionais são muito importantes
na construção do significado daquilo que se aprende, formando uma rede
de inter-relações entre esses conteúdos e aquilo que já se conhece. Assim,
os aspectos emocionais interferem na construção do conhecimento. Abrangem
um amplo campo, desde dificuldades para lidar com as frustrações até sérios
transtornos emocionais como psicose e depressão infantis.
Para além das causas individuais, estão as de
ordem ambiental, oriundas da família, da escola e da sociedade, como um todo.
São fatores intervenientes o próprio modelo de funcionamento da família e
as relações aí estabelecidas; o perfil da escola, sua filosofia, metodologia
e as relações advindas de sua estrutura administrativa e pedagógica; e o meio-ambiente
sócio-cultural com poucos estímulos.
Torna-se necessário lembrarmos que esses fatores não
são estanques, nem aparecem isoladamente. Eles têm uma circularidade causal,
como bem diz Alicia Fernández: “A origem do problema de aprendizagem não se
encontra na estrutura individual. O sintoma se ancora em uma rede particular
de vínculos familiares que se entrecruzam com uma também particular estrutura
individual”. ( Fernández- 1990)
Se ao papel da família acrescentarmos o papel da escola,
como matrizes de desenvolvimento
e promoção do equilíbrio do sujeito, teremos a formação completa dessa rede,
como já foi dito acima. Ambas são responsáveis tanto pela aprendizagem como
pela não-aprendizagem do indivíduo. Modificações na estrutura e funcionamento
da rede de relações podem trazer melhorias para o aprendente, desmistificando
a sua culpa nos transtornos de aprendizagem.
Desta forma, tanto o psicopedagogo clínico como o psicopedagogo
institucional, num primeiro momento, vão avaliar os fatores envolvidos nos
transtornos. O diagnóstico psicopedagógico abre possibilidades de intervenção
e dá início a um processo de superação das dificuldades.
Num segundo momento, o psicopedagogo
iniciará o processo de intervenção junto à instituição (Escola, Hospital,
etc.), no sentido de promover as mudanças necessárias; e junto ao indivíduo,
através de orientação dentro da própria instituição ou encaminhamento para
um trabalho clínico especializado.
Num terceiro momento, vão atuar como interlocutores
entre o indivíduo, seus pais, professores e especialistas, com o objetivo
de estabelecer um espaço de confiança, segurança, tranqüilidade e prazer entre
todos, onde seja possível a aprendizagem: regras firmes e claras, mas flexíveis
para permitir experimentação e escolha; respeito e acolhimento para ouvir
as demandas das crianças; tempo para que essas demandas apareçam; liberdade
que permita o processo de construção da individualidade das crianças; troca
de afetividade, como possibilidade de estabelecimento de vínculos.
Somente através da construção dessas parcerias é que perceberemos
novas possibilidades de redefinição do sistema – Família – Escola – Indivíduo
- para podermos atingir nossos objetivos, enquanto psicopedagogos: a criação
de um novo contexto em que o sintoma de não-aprendizagem desapareça, por não
mais se fazer necessário.
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