Elipse Clínica Multidisciplinar

Preguiça ou Dificuldade para Aprender?

Fernanda Brunelli Ramos
Psicóloga - Neuropsicóloga

“Meu filho é preguiçoso para estudar”

Algumas frases como esta são muito comuns serem ouvidas da boca de pais e cuidadores, no que diz respeito aos seus filhos em idade escolar. Em minha experiência como neuropsicóloga, posso afirmar que boa parte dos pais de crianças e adolescentes com queixas de dificuldade escolar que atendi atribuíram um adjetivo comum aos seus filhos: preguiçoso.
Embora saibamos que crianças e adolescentes podem, de fato, ter seus momentos de preguiça (assim como nós adultos), não podemos deixar de lado uma discussão importante que gera muita reflexão e questionamentos: quando sei que meu filho não está com preguiça, mas com uma real dificuldade? Essa é uma pergunta um tanto complexa, mas a união de diferentes saberes pode responde-la, e dentre tais saberes destaca-se a neuropsicologia.

O que é neuropsicologia?
Em suma, a neuropsicologia é uma ciência que tem por finalidade estudar as relações entre cérebro e comportamento. Para isso, o neuropsicólogo tem à disposição uma série de instrumentos validados e fidedignos que lhe permitem identificar alterações comportamentais e cognitivas, ou seja, ele identifica quais são as facilidades e as dificuldades do indivíduo avaliado no que diz respeito aos seus comportamentos e cognição. Identificadas as possíveis alterações, estabelece-se um melhor programa de intervenção para reabilitação daquilo que está alterado. Por exemplo, um adolescente que foi avaliado e apresentou dificuldades que são compatíveis a um quadro de Déficit de Atenção pode ser encaminhado a acompanhamento psicopedagógico, reforço escolar, a profissional fonoaudiólogo ou, em alguns casos específicos, a médico psiquiatra. Tudo dependerá das características do caso.

Fatores internos e externos
Quando pensamos no contexto escolar, logo falamos de aprendizado. O aprendizado é um processo que se inicia desde quando nascemos e só é interrompido quando morremos. A aprendizagem está relacionada com três componentes: memória, atenção e estimulação. Quando falamos de estimulação, devemos compreender que ela acontece de forma interna (maneira que o cérebro processa as informações e bom funcionamento das vias que levam as informações ao cérebro, tais como audição, visão, etc) e externa (emoções, motivação do ambiente familiar, escolar e social, etc). Não é incomum encontrarmos crianças ou até adolescentes que apresentem queixas relacionadas a aprendizagem e estejam, na realidade, com alterações em uma ou mais vias de informação, como audição e visão. Também é possível encontrar-mos casos de indivíduos com excesso de tarefas cotidianas que levam-no a um cansaço extremo, caindo, assim, seu rendimento escolar. Há também casos de crianças e adolescentes muito inteligentes, com QI acima da média ou até superior, que possuem fraco rendimento na escola pois apresentam queixas emocionais importantes, que podem, por exemplo, estar relacionadas a uma depressão, ansiedade, separação dos pais, sentimento de menos valia, luto, vivência de episódios de violência em suas diferentes modalidades (negligência, abuso físico, sexual e psicológico), dentre outros fatores.

Quando procurar um neuropsicólogo?
Uma criança ou adolescente que possua restrição em um ou mais componentes relacionados às bases do aprendizado, podem, de fato, apresentar dificuldades que, em muitos casos, são confundidos como preguiça. Se seu filho (a) possui um rendimento abaixo da média na escola, e apresenta, muitas vezes, aversão aos estudos, pode ser importante investigar-se os possíveis fatores internos e externos que o impedem de melhorar seu rendimento. O neuropsicólogo será uma importante fonte de esclarecimento, principalmente no que diz respeito a avaliação das facilidades e dificuldades cognitivas do indivíduo. Para uma boa avaliação geral, uma equipe de multidisciplinar de profissionais é de suma importância.
Portanto, se seu filho (a) parece ser “preguiçoso”, procure encaminhá-lo para ser avaliado por profissionais capacitados para que seja possível compreender-se as possíveis razões, que podem ser desde falta de motivação até dificuldades importantes na cognição.

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