Elipse Clínica Multidisciplinar

Avaliação Psicopedagógica: Um Lindo Caleidoscópio

Diagnosticar não é Rotular.

Silvia Amaral de Mello Pinto
Pedagoga/Psicopedagoga

Vivemos, atualmente, um momento de consciência para respeitarmos as diferenças, sejam elas quais forem, desde simples opiniões até jeitos de ser e estar no mundo. Nesse contexto, a escola abriu-se mais para acolher os alunos, não apenas pelas leis.

Com relação à aprendizagem, houve necessidade de se conhecer mais o “como” isso acontece, e nem tanto “o que” ensinar, já que todos nós temos jeitos diferentes de aprender. Vários aspectos precisaram ser mais valorizados e suas interferências estudadas, incluindo aí desde pequenas dificuldades até os Transtornos Específicos de Aprendizagem. Embora os profissionais da escola tenham preparo e experiência para decidir seus conteúdos curriculares, escolher as atividades e estratégias de ensino e colocar em prática tudo isso, nem sempre o processo decorre como esperado, ou nem sempre para todos. Por que esse fato ocorre?

As pessoas são únicas e suas reações aos diferentes estímulos são imprevisíveis. Algumas vezes os fatores externos, ambientais, sejam eles oriundos da escola ou da família, podem interferir. Por outro lado, fatores internos do próprio sujeito, como os orgânicos, cognitivos ou emocionais, também podem ser causa de entraves no processo de aprendizagem, prejudicando a cognição. Cabe à escola fazer essa primeira análise, observando melhor essa criança ou jovem, conversando com estes, levantando dados junto aos professores e criando estratégias para solucionar os problemas. Igualmente importante é chamar a família para um encontro, e, através deste, dados podem ser colhidos para ajudar na superação dessas dificuldades.

Se, após tomadas todas essas iniciativas, não houver mobilização do sujeito e minimização dos sintomas percebidos, é hora de recorrer a uma ajuda externa, com o objetivo de identificar quais são as causas das dificuldades. O olhar de um profissional que esteja distante daquela situação, pode ser favorável, por ser neutro. É isso que a escola quer quando solicita uma avaliação do aluno(a) à família, seja ela uma avaliação psicopedagógica, psicológica, fonoaudiológica, neuropsicológica ou multidisciplinar.

Nessa hora geralmente surgem algumas perguntas que traduzem as dúvidas e as inquietações da família: “Ele é inteligente, por que precisa ser avaliado? Meu (Minha) filho(a) não se sentirá pressionado(a)? Ser avaliado(a) diminuirá sua autoestima? Ele não pode achar que estamos duvidando de sua capacidade? Não vai ser rotulado?”

Avaliamos para poder diagnosticar. Esse é o papel do profissional na clínica: fazer uma análise da situação e diagnosticar os problemas e suas causas. Desta forma, os profissionais procuram compreender o indivíduo em suas várias dimensões para identificar o que está acontecendo. Assim, apesar da avaliação ser um ponto de partida, ela se constitui, ao mesmo tempo, um trabalho de intervenção, porque muitas questões já são levantadas e trabalhadas com o indivíduo, que é levado a se olhar e a perceber a sua atuação.

Um bom profissional se preocupa em cuidar muito bem do sujeito que recebe, com a atenção e o respeito que ele merece. Com isso, ele se sentirá à vontade e não pressionado. Ele não está na clínica para ser colocado em cheque, mas para ser ajudado a sair da situação em que se encontra e que está sendo um obstáculo ao seu desenvolvimento, seja ele cognitivo ou afetivo, independentemente de sua idade. Para isso é necessário permitir que esse indivíduo descubra o que se passa com ele. Só podemos resolver um problema, se admitirmos que temos um problema e se sabemos que problema é esse. Nomear dá legitimidade à situação e atribui a esta contornos que a definem.

Assim, diagnosticar não é rotular uma pessoa. Rotulada está a criança que não é olhada nem ouvida, e por isso não está sendo cuidada. É aquela sobre a qual dizem que é “preguiçosa”, “desinteressada”, ou que “não gosta de estudar” e “ainda não deu o click”. Enquanto esses rótulos vão surgindo, vai-se protelando o início de um trabalho de avaliação que realmente pode dizer o que está acontecendo. A espera para ver se a situação resolve por si mesma, leva à perda de um tempo precioso, em que só se acumulam dificuldades, lacunas de aprendizagem e fracassos, estes sim, trazendo prejuízos à autoestima.

A palavra diagnóstico, etimologicamente, vem do grego diagnostikós em que “dia” significa " por meio de" e gnostikós é "conhecimento, entendimento", ou seja, podemos dizer que diagnóstico é o caminho por meio do qual se chega ao conhecimento e entendimento sobre o sujeito, de forma holística. Através dele, a criança poderá ser conhecida e se conhecer e, assim, superar suas dificuldades.

Podemos pensar a avaliação como um lindo e colorido caleidoscópio, que representa bem a criança que nos chega. O olhar que direcionamos a ela é semelhante ao que direcionamos ao caleidoscópio. Podemos enxergar as maravilhas de uma grande variedade de representações e diversas possibilidades, que se traduzem não apenas pela soma, mas principalmente pelo entrelaçamento de seus componentes, gerando lindas imagens que mostram a narrativa viva e cambiante desse sujeito. Por outro lado, através dos testes, provas e atividades desenvolvidas, também podemos ver os entraves que podem acontecer nessas interrelações e estão bloqueando o caminho da aprendizagem dessa criança. Esse processo é dinâmico, assim como o movimento das peças do caleidoscópio; e a possibilidade de mudança traz vitalidade e esperança a todos que nos chegam buscando ajuda. A avaliação psicopedagógica ou a interdisciplinar representam o primeiro passo do processo de superação das dificuldades, com a intenção de ajudar o sujeito a reencontrar seu caminho e o desenvolvimento harmônico.

Você está aqui: Artigos Avaliação Psicopedagógica: Um Lindo Caleidoscópio