Elipse Clínica Multidisciplinar

O trabalho com famílias em situação de vulnerabilidade social

Por Cristiana P. G. Pereira e equipe do Instituto de Terapia Familiar de São Paulo.

As políticas públicas no Brasil foram pautadas pelos direitos segmentados: direitos da mulher, da criança e do adolescente, do idoso. As famílias, embora tenham sido alvo de iniciativas caritativas, especialmente as de cunho religioso e com forte viés moralizante, somente recentemente foram escolhidas como alvo de políticas públicas.

A família tem, hoje, um lugar garantido no discurso das políticas públicas. Um dos objetivos da PNAS – Plano Nacional de Assistência Social - é: “assegurar que as ações no âmbito da assistência social tenham centralidade na família e que garantam a convivência familiar e comunitária”.

Entendemos famílias como: “um sistema vivo, em constante transformação, um organismo complexo que se altera com o passar do tempo, para assegurar a continuidade e o crescimento de seus membros”.(Andolfi,1984)

No momento, o grande programa nacional de assistência social consiste na transferência de renda para as famílias muito pobres. O Programa Bolsa Família e o PROASF – Programa de Assistência Social às Famílias, da Secretaria Municipal de Assistência Social do município de São Paulo tinham, entre outros objetivos, pensar uma forma de intervenção, além da transferência de renda.

O presente caso é fruto de uma parceria do poder público municipal e do ITFSP – Instituto de Terapia Familiar de São Paulo, uma associação sem fins lucrativos, criada há 17 anos e que vem difundindo conhecimentos sobre Terapia Familiar numa visão relacional-sistêmica, em uma abordagem que cria um novo olhar para uma velha questão: as relações familiares.

Em fevereiro de 2004 o ITFSP estabeleceu convênio com a Prefeitura Municipal de São Paulo para a operacionalização do PROASF. O Programa instituiu-se a partir da presença de necessidades sociais nos territórios da cidade na perspectiva de possibilitar a articulação das redes sócio-assistenciais locais.

O ITFSP responsabilizou-se pelo atendimento de 2900 famílias nos territórios da zona norte da cidade que apresentavam alta e altíssima privação.

Na cidade de São Paulo localiza-se grande parte da riqueza do país, todavia localiza-se também o maior bolsão de pobreza.

As áreas de altíssima vulnerabilidade agrupam as famílias conforme a concentração de adolescentes em conflito com a lei, a presença de adolescentes mães de filhos nascidos com baixo peso e a presença de serviços direcionados à população de crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social.

A ação foi desenvolvida no sentido de ampliar a colaboração e a conexão com as instituições que já trabalhavam na área do projeto, buscando um trabalho de rede que possibilitasse às famílias o resgate da auto-estima e a apropriação de recursos e saberes para o enfrentamento de suas dificuldades.

Buscamos favorecer contextos onde essas famílias puderam conversar e ser escutadas, ajudando-as a ampliar suas relações intergeracionais e comunitárias, fortalecendo-se como grupo, aprendendo uns com os outros e otimizando seus recursos e competências, bem como as possibilidades de acesso e interação com a rede social.

Buscamos uma aproximação Nos colocamos disponíveis para escutar e refletir com os grupos os temas emergentes de cada contexto, construindo os caminhos alternativos possíveis, por meio uma reflexão conjunta, otimizando a possibilidade de desenhar caminhos alternativos.

A metodologia de trabalho, então, se estabeleceu de forma sistemática com a realização de grupos sócio-educativos, atendimentos individuais e visitas domiciliares.

Para ampliar o universo cultural das famílias e para aumentar a participação, deu-se início à realização de eventos abertos à comunidade como projeção de filmes, passeios, palestras, entre outros. Este fato, somado à necessidade de atividades de geração de renda, resultou também na estruturação de oficinas de artesanato nas comunidades.

A experiência, como executores do PROASF, levou-nos a reflexões que dividimos em três áreas:

• Características das famílias em vulnerabilidade social;
• Elementos para a construção de um programa público para estas famílias;
• Forma de trabalho psicossocial.

Progressivamente fomos conhecendo as famílias e destacando elementos comuns a elas. O primeiro deles é o fato de não terem seus direitos básicos atendidos. As moradias são precárias, falta saneamento básico, saúde, educação, acesso à cultura e lazer.

A pobreza, o desemprego e a violência constante configuram o quadro. O transporte também precário é um ponto chave. Uma viagem do centro até certas regiões da periferia de São Paulo pode durar até três horas.

As famílias recebem pouco apoio dos serviços públicos seja porque eles não existem ou são muito deficientes nos territórios próximos a elas, seja porque estas famílias não sabem como acessá-los ou mesmo perderam a confiança neles.

As famílias têm muitos filhos e gerações convivem com valores bem diversos, desde avós referenciados numa cultura de origem rural, adultos adaptados à cultura da megalópolis e jovens representantes de uma cultura urbana de periferia.

Os agrupamentos familiares organizam-se em torno das mulheres, mulheres muito jovens são mães, a mobilidade das relações, dentre outros fatores, torna difícil a presença paterna. Cabe dizer que os serviços são freqüentados basicamente pelas mulheres e que o acesso aos pais e aos homens carece de estratégias específicas.

O ciclo vital destas famílias é diferenciado, e sua própria percepção de pertencimentos às famílias não segue o modelo da família urbana nuclear burguesa. São várias gerações convivendo no mesmo espaço, sendo que os avós têm especial papel no suporte a fetivo e econômico (muitas vezes a aposentadoria é a única renda fixa familiar); jovens meninas já são mães, morrem muitos homens jovens e vários pais se afastam das famílias.

A necessidade de buscar a manutenção econômica, somada à evasão escolar, e à maternidade/paternidade precoces fazem com que o tempo de adolescência seja bem mais estreito do que nas famílias brasileiras de maior poder aquisitivo.

O preconceito social forma um verdadeiro nó com a temática de gênero, nó no qual o preconceito racial também se faz presente. Tais famílias enfrentam preconceitos de todas as partes, inclusive dos prestadores de serviços e encarregados da assistência.

As famílias não têm conhecimento de suas potencialidades e não se apropriam de suas competências, mesmo daquelas utilizadas cotidianamente em sua sobrevivência.

A circulação das histórias afetivas e as conversas para a solução de problemas são difíceis. Parece faltar energia para buscar as mudanças já que o esforço está concentrado na sobrevivência “por mais um dia” em suas vidas. Os vínculos sociais são distantes e a rede de apoio familiar apresenta-se reduzida pela falta de construção de espaços públicos de troca.

As mulheres não gostam de falar de seus pais e contar as histórias de abandono e dor. A dor dos homens não é levada em consideração, os filhos não conhecem as histórias de seus pais e acabam por vê-los como pessoas sem qualidades. As narrativas tornam-se fragmentos que emergem de fios cortados de uma memória que se desconecta na virtualidade dos afetos e da rede social.

Os serviços parecem conectar-se aos padrões relacionais das famílias atendidas de forma isomórfica. A descontinuidade na oferta de serviços, a desconexão entre os agentes sociais presentes no mesmo território, a falta de circulação das informações e de consideração aos afetos destacam-se e somam-se à insuficiência da rede de serviços oferecida.

Podemos afirmar que quanto aos serviços e servidores também há uma concentração de energia em viver um dia de cad a vez e falta de energia para articulação e planejamento. Os cuidadores também são portadores de muitos sofrimentos e para que possam cuidar, eles próprios precisam ser cuidados.

No decorrer do projeto vivemos a tensão entre o tempo do trabalho vincular e entre o tempo da implantação dos serviços e a busca de resultados; entre planejamentos envolvendo milhares de famílias e as idiossincrasias de locais e famílias; entre um modo de condução autoritário que considera as famílias desprovidas de saber competências e o contato com as famílias as considerando a elas capazes de tomar decisões sobre suas vidas.

Os territórios sempre apresentavam algum tipo de iniciativa anterior, seja de cunho governamental, de ONGs, de iniciativa religiosa, ou mesmo trabalhos assistenciais de iniciativa particular. Nos locais onde existia uma história de cooperação ente os agentes sociais e trabalhos consistentes nosso trabalho se deu a partir desta rede construída e procurou fortalecer a circulação de informação e cooperação.

O trabalho necessário para ter as famílias nos grupos: as visitas domiciliares, o acolhimento constante, os convites reiterados e as adaptações de horário; tiveram efetividade proporcional à força e pertinência da rede de serviços já instalados. De maneira que a história também é relevante para os serviços, não só para as famílias.

A forma de trabalhar com as famílias buscou conectar os fios cortados. Neste processo, foi fundamental recuperar as trajetórias de migração, com suas perdas, mas também com suas histórias de sucesso. A ênfase no positivo, no aprendizado que advém do sofrimento e nas competências das famílias foi constante.

Treinamos e cuidamos arduamente de nossos trabalhadores sociais para que eles tivessem olhos e ouvidos para as histórias das famílias, para que permitissem a interação entre elas mais do que buscassem ser centrais nos encontros.

Ao permitirem-se esc utar as famílias os trabalhadores puderam acessar suas próprias histórias e assim, estabelecer pontes entre eles, cuidadores, e as famílias atendidas. Tais pontes nos parecem fundamentais para a superação dos preconceitos.

Acreditamos que os contextos de dor devam ser tratados com toda a delicadeza e afeto e que a circulação das histórias, um verdadeiro treino da memória afetiva, permite não só o enraizamento das famílias com suas próprias histórias, mas a facilitação da construção da rede social.

Os trabalhos com as famílias deram-se inicialmente a partir das oficinas de geração de rend a, aprendemos que todo encontro pode dar ensejo a troca de histórias.

Utilizamos filmes que trouxessem conteúdos relacionados à migração, narrativas prototípicas, estimuladoras das histórias de migração perdidas. Utilizamos também a fotografia para que as famílias pudessem ter imagens delas mesmas juntas.

Aprendemos que o universo cultural popular nos dá com a música, histórias, brincadeiras, um vasto repertório de identificação, um verdadeiro acervo dos sofrimentos, divertimentos e habilidades das gerações anteriores. Entendemos que os contadores de histórias profissionais podem ser ricos facilitadores.

Observamos que os serviços sociais também são conduzidos em sua maioria por mulheres e que frequentemente não existe a preocupação específica de atingir os homens, seus valores e maneira de comportar-se, assim reproduz-se e reifica-se a tradicional divisão que considera que os vínculos são das mulheres e que a sociabilidade masculina deve ser buscada exclusivamente nos bares.

A experiência do masculino também é um lugar de sofrimento na sociedade pautada pelo gênero, especialmente quando o homem perde ou vê ameaçadas suas referências de identidade: trabalhador, provedor e pai de família. O sofrimento masculino não anula a opressão de gênero sofrida pelas mulheres, não justifica a violência perpetrada por homens contra mulheres, mas, também merece cuidado.

Consideramos fundamental buscar a história dos homens, dando voz a eles quando estiverem presentes; fazê-los perceberem que eles também têm suas histórias depositadas nas memórias das mulheres mas que podem ser apropriadas por eles. Fará muito bem aos filhos poderem escutar as histórias de seus pais, poderem estabelecer com eles relações de pertencimento.

Pensamos que elementos importantes para o trabalho psicossocial são:
• Construção de espaços públicos de ajuda;
• Prontidão: capacidade de acolher as necessidades familiares, na medida que a solicitação é efetuada;
• Intensidade: resultado da conexão e da continuidade das iniciativas estabelecidas com as famílias;
• Protagonismo familiar: movimento resultante da circulação das informações e do apoio dado às famílias e que permite às próprias famílias tomarem suas decisões;
• Recursos à intervenções múltiplas: grupos de geração de renda, de discussão, de tarefas, visitas domiciliares, acompanhamentos, atividades culturais, etc;
• Treinamento dos agentes sociais: desenvolvimento da compreensão relacional sistêmica, da capacidade de perguntar, da compreensão sobre preconceito social, racial e de gênero, das características da população atendida e das intervenções já utilizadas;
• Cuidado com o cuidador.

Aprendemos que faz bem às famílias escutarem-se umas às outras e serem escutadas, especialmente quando buscamos as competências e o destaque aos pontos positivos.

Quando tal processo ocorre conhecemos mais da incrível diversidade e mobilidade destas famílias mas, principalmente, aprendemos sobre nossas possibilidades e limitações e, ainda, aprendemos a aprender e a narrar.
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