Elipse Clínica Multidisciplinar

Trabalhando Famílias do Programa Renda Cidadã: uma metodologia amorosa

Cristiana P. G. Pereira
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Equipe do ITFSP


Introdução


O presente trabalho é fruto da parceria do ITFSP Instituto de Terapia Familiar de São Paulo com a SEMIS Secretaria Municipal de Integração Social de Jundiaí.

Desde 2003, profissionais do ITF, viajam a Jundiaí para ministrar cursos e capacitações aos técnicos da SEMIS onde são trabalhados conteúdos do pensamento relacional sistêmico, do funcionamento das famílias e de como potencializar os recursos dos indivíduos, das famílias e das comunidades.

Em julho de 2006, fomos procurados pela Semis que desejava implementar mudanças nos trabalhos que vinham sendo desenvolvidos com as famílias. Queriam pensar uma forma de intervenção com as famílias que fosse além da transferência de renda. Começaríamos um projeto piloto com um grupo de 42 famílias em vulnerabilidade social inscritas no programa Renda Cidadã.

Quando pensamos em Famílias e Políticas Publicas no Brasil vimos que estas foram pautadas pelos direitos segmentados: direitos da mulher, da criança e do adolescente, do idoso. Somente há alguns anos a família tem um lugar garantido no discurso dos programas sociais.

Um dos objetivos da PNAS – Plano Nacional de Assistência Social - é: “assegurar que as ações no âmbito da assistência social tenham centralidade na família e que garantam a convivência familiar e comunitária”.

No momento, o grande programa nacional de assistência social consiste na transferência de renda para as famílias muito pobres. Ex: Renda Cidadã, Bolsa Família.

Atualmente o grande desafio das Políticas Publicas e dos programas de assistência às famílias brasileiras consiste em como associar ao beneficio, como o Bolsa Familia, por exemplo, trabalhos que efetivem uma promoção de autonomia, auto-estima e fortificação dos vínculos dos núcleos familiares.

A experiência do ITFSP junto a prefeitura de São Paulo, no trabalho, em alta escala, com as famílias em vulnerabilidade em programas como o PROASF 2004/05 e o Ação Família 2006/07, gerou muitos aprendizados e uma metodologia de trabalho tanto na aproximação às famílias, nas visitas domiciliares como principalmente nos grupos sócio educativos com familiares.

Partíamos de modelos de atuação presentes em nossa formação de terapeutas familiares relacional sistêmicos como também dos Grupos de Multifamílias, da Terapia Comunitária de Adalberto Barreto, dos Jogos Cooperativos e vivências e dinâmicas vindas do Sóciodrama.

Algumas de nossas maiores aprendizagens foram: favorecer contextos onde essas famílias pudessem conversar e ser escutadas, fortalecendo-as como grupo, aprendendo uns com os outros e otimizando seus recursos e competências, bem como as possibilidades de acesso e interação com a rede social.

Buscamos uma aproximação nos colocando disponíveis para escutar e refletir com os grupos os temas emergentes de cada contexto, construindo os caminhos alternativos possíveis, por meio de uma reflexão conjunta.

Começa o Trabalho - Construção do pedido

Esse trabalho começa no inicio de agosto de 2006, onde realizamos dois encontros com os técnicos: 1 psicólogo e 2 assistentes sociais desse setor da SEMIS chamado Projeto Criança. Nessas reuniões pretendíamos entender e construir o pedido para trabalhar com 42 famílias em vulnerabilidade social inscritas no Programa Renda Cidadã.

O Trabalho feito com as famílias, até esse momento, era o repasse do benefício de 60,00 reais.e as reuniões sócio-educativas realizadas como palestras, com temas: planejamento familiar, drogas, sexualidade, etc. O foco do trabalho e das conversas com as famílias era a geração de renda e o convite a freqüentarem cursos, a grande maioria de artesanato, oferecidos pela rede.

Os técnicos questionavam a pouca participação das famílias que mostravam um desânimo, “como se faltasse proporcionar para as famílias algo anterior a isso... ”Relatavam que após esses encontros/palestras havia uma alta demanda, uma grande fila se formava para desabafarem com os técnicos problemáticas cotidianas como: escola dos filhos, desemprego, gerando muitas vezes o esgotamento dos técnicos.

Teríamos que realizar reuniões de grupos diferenciadas com uma nova forma de atuação com as famílias , congruente com esse pedido e nossa experiência.

Aprendemos que faz bem às famílias escutarem-se umas às outras e serem escutadas, especialmente quando buscamos as competências e o destaque aos pontos positivos. Quando tal processo ocorre conhecemos mais da incrível diversidade, mobilidade e resiliência destas famílias.

O foco na família visa, entre outros propósitos, o de fortalecer os vínculos frouxos presentes em famílias com alta vulnerabilidade social e sua conexão com a comunidade.

A importância da valorização da presença masculina e buscar ao ouvir os relatos a articulação das redes sócio-assistenciais locais também são norteadores do trabalho.

Metodologia Amorosa

Realizamos cinco encontros quinzenais com os representantes desta 42 famílias, onde nossa metodologia de trabalho foi sendo passada. Após cada reunião de hora e meia, fazíamos uma conversa reflexiva e avaliação com os técnicos.

O primordial nesses grupos é proporcionar um espaço de acolhimento, de promoção de competências onde através das trocas de experiências e de dificuldades entre os participantes podemos dar voz e legitimar as vivências e aprendizagens de todos.

Neste contexto amoroso de inclusão e legitimação as famílias encontram mais ferramentas para lidar com seu cotidiano e os técnicos podem melhor conhecer e se aproximar das famílias, podendo dar continuidade ao trabalho feito nos grupos através de encaminhamentos e acompanhamento das situações.

A coordenação foi sendo passada aos poucos e nos últimos encontros a técnica do ITF já ocupava um lugar de observadora participante. A partir de Novembro passamos a atuar somente com supervisões mensais.

Podemos chamar nossa metodologia de trabalho com as família de amorosa porque como diz Maturana, tudo que legitima o outro como legitimo outro é amoroso.

Nesses grupos existe: acolhimento, reconhecimento do outro, damos voz as pessoas, num clima de solidariedade e afetividade, onde há valorização das historias e reconecção de memórias, destacamos competências e saberes.

Os contextos de dor são tratados com toda a delicadeza e afeto, numa dinâmica de colaboração e horizontalidade, onde a troca e diversidade são valorizados todos esse entendidos por nós como atos de amor...

Resultados

Desde o primeiro encontro os participantes deram depoimentos positivos, gostando do formato, “antes vínhamos para escutar agora viemos para falar”, “eu chegava a dormir”, mais alegre, mais participativo, aprendemos com os outros, mais emoção etc.

Houve diminuição da demanda para os técnicos, uma vez que este formato de grupo faz com que as pessoas desabafem, troquem e saiam com a certeza de terem sido escutadas e contidas. Quando terminam os encontros as pessoas vão embora satisfeitas sem necessidade de falar individualmente com os técnicos.

Através dos grupos e dos relatos trazidos pelas famílias, os técnicos vão tendo conhecimento e dando seguimento a muitos casos. Há o aprofundamento dos vínculos e das temáticas tanto entre os participantes quanto entre os técnicos e os beneficiários do programa.

Como mostra um dos nossos grandes mestres, Adalberto Barreto, neste tipo de proposta de trabalho horizontal podemos ver a formação de redes solidárias, o sentimento de pertencimento e das relações comunitárias.

Através dos relatos, encontro após encontro, vemos as modificações ocorrendo na vida das famílias e o protagonismo acontecendo.

Desdobramentos- Multiplicação

Como os técnicos se identificaram muito com a proposta e o resultado desse projeto piloto foi muito satisfatório, passaram a trabalhar dessa forma com outros grupos de familia em outros programas da secretaria.

Como exemplo: os familiares dos adolescentes que participam das oficinas, do PETI, do Sinal Amarelo e nos CRAS - Centro de Referencia da Assistência Social.

Gratificados vemos que mesmos as famílias que não recebem beneficio econômico estão participando do grupo, no momento mais de 40 famílias não bolsistas estão presentes nas reuniões.

Com satisfação, podemos afirmar que aos poucos a metodologia de trabalho com famílias vem sendo modificada no Município de Jundiaí.
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